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Fuga para liberdade

 

       Fugir com o Circo era um sonho comum a muitas crianças e jovens no tempo em que o picadeiro era o maior entretenimento que as pessoas tinham acesso. A tentativa de fugir da realidade, ou simplesmente o encantamento com o mundo imaginário e mágico que existe no Circo, fazia com que muitas pessoas quisessem fugir com os circenses.

      Até hoje, nas cidades do interior, os moradores, principalmente os mais velhos, contam histórias de homens e mulheres que fugiram com o circo, alguns que nunca mais voltaram e outros que foram no ímpeto, mas depois de descobrirem que a vida no circo não é só magia, mas tem trabalho pesado,tanto nos ensaios quanto na administração, acabaram retornando.

       O circo tem uma mistura de sensações e a fuga para viver nesse mundo tem muitas explicações. Alegria, cor, picadeiro, infância, lona, palhaço, muitas palavras foram citadas por entrevistados, mas o sentimento de liberdade foi a primeira palavra que Rita de Cássia Cornélio lembrou sobre o mundo mágico.

A história da jornalista mostra um pouco o que o espetáculo circense e seus artistas podem fazer na vida dos expectadores, como por exemplo, “tirar” a parte ruim da realidade de quem assiste ao mundo encantado.        

        No momento da apresentação, é possível tirar o espectador do mundo real, levando-o a um lugar onde tudo parece perfeito, que liberta de preconceitos, tabus, e deixa que as pessoas vivam como queiram. Se a arte é libertadora, pode-se imaginar então, como são os artistas que vivem viajando, sem nada que os prenda, conhecendo todo tipo de gente e tendo a liberdade de escolher onde queiram ir. E esse era o sonho que Rita queria seguir.

        Rita morava quando criança em frente a um terreno, em Bauru, no interior de São Paulo, onde eram montados parques, tendas religiosas e o Circo. Como ela era a mais nova de seis irmãos e tinha grande diferença de idade, ela acabava tendo que ficar dentro de casa brincando sozinha. A janela do quarto dos seus pais era a sua janela do mundo, e de lá, Rita observava as pessoas que passavam e “puxava” assunto com quem pudesse.

        Por meses ela esperava a chegada do circo, momento em que o mundo visto da janela se tornava mais movimentado. “Quando eles começavam a esticar a lona suja e rasgada era um espetáculo a parte”, lembra Rita. A única relação que ela tinha com os circenses fora do espetáculo, era o fornecimento de água da casa dela para que eles usassem. “Meu pai acabava permutando a água que eles usavam para cozinhar, por ingressos para a família”, conta.

       Quando o Circo chegava, ela já sabia que conheceria os artistas, com e sem maquiagem. “Era um mundo encantado, lotado de alegria, de magia, de festa. Aprendi com eles que não importa a situação, temos que sorrir, porque era assim que o palhaço fazia.”

       Na convivência com os circenses, Rita conhecia muitos lugares, mesmo que apenas através das histórias contadas por eles. “Vi muita gente chorando de saudade de alguém, mas quando subiam no palco, faziam o espetáculo como se nada tivesse acontecido.” Como se fosse a pouco tempo, Rita lembra o ritual para assistir aos espetáculos, que era a cerimônia para as famílias, onde ia o prefeito,a primeira dama,o delegado, todas as pessoas importantes. “Com o vestido azul de missa, eu seguia para o espetáculo.” Mas ela enxergava mais do que era apresentado. Imaginava-se voando feito os trapezistas, pulando na rede, fazendo as pessoas rirem. “Eu era a artista”, brinca.

       Da janela da casa dela, Rita imaginava o mundo que poderia descobrir. Ela imaginava uma vida de aventuras, cada dia um lugar diferente, queria ser livre, ver diferentes paisagens, não a mesma da sua janela, por onde ela conversava com as pessoas que passava. Rita também procurava aventura, estar com os animais que ela tanto gostava. Ela pensava que se vivesse no Circo, poderia ver todos os espetáculos, conhecer muitas pessoas, seu sonho realmente era fugir com o Circo. E de tanto que ela falava sobre isso, todos os integrantes do picadeiro já sabiam.

       Após muita insistência, Rita conseguiu e eles aceitaram levá-la. “Fui no carro que era quarto, cozinha e banheiro. Com a trapezista e outra mulher musculosa. Fiquei tão feliz, muito feliz.” Pra ela o circo não passava de uma casa ambulante, cheia de amigos e com muita alegria, diferente da dela, que era fixa, só com a família e com suas regras.

      E então seu sonho foi realizado. Pelo menos por algumas horas, já que o carro voltou e a deixou em casa. Mas mesmo por pouco tempo, a fuga com o circo foi o suficiente para Rita sentir a liberdade desejada e conhecer as maravilhas do mundo circense que tanto queria.

      A jornalista não se arrepende de ter tentado morar com os circenses, mesmo não tendo sucesso. Anos depois, Rita descobriu que seu pai havia combinado com os circenses, para que eles a levassem por pouco tempo, apenas para realizar o sonho de uma menina de 5 anos de viver no picadeiro . “Aquilo marcou a minha história.”

Trabalho de conclusão de curso desenvolvido pela aluna Renata Marconi Polonio, sob orientação da Profª Dra. Angela Maria Grossi de Carvalho, para obtenção do título de bacharel em Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"

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